O Camino de Santiago de Compostela

Manhã de 22 de maio em Baiona, Espanha. Eu abro a janela e o quarto é invadido por um som alto, mas tranquilo, do mar quebrando nas rochas. O barulho da água é hipnotizante, um ruído branco mais alto que os meus pensamentos. Parece que o tempo parou por um momento, separando o que aconteceu antes do que está por vir.

Eu ainda não sei, nesse momento, quanta dor vamos aguentar nos próximos seis dias; como será a satisfação de chegar; ou que lições os próximos 144km vão me ensinar. Seja lá o que vier pela frente, mal posso esperar para começar.

Homem saindo da água

A caminhada

Quando fiz o Kumano Kodo no Japão, meu objetivo era dar um passo atrás, metaforicamente falando, e reconectar o eu primitivo com a natureza. Buscar algum significado. Sabe, o que a gente faz quando está prestes a fazer quarenta.

Meu objetivo nesses seis dias no Camino era diferente. Eu não estava procurando nada além de desconectar e cuidar da minha saúde mental com meditação. Uma caminhada é perfeita para isso porque funciona como uma força gravitacional que puxa os pensamentos para um ritmo constante e mais lento, no compasso da paisagem que vai passando. Cada passo vira uma batida na música da mente.

As regras continuam as mesmas da minha caminhada no Kumano Kodo: nada de redes sociais, música, podcast ou qualquer coisa que me tire do presente.

Comigo estão minha esposa e um amigo, o Marcos, numa caminhada que vai atravessar Vigo (a 27km), Redondela (16km), Pontevedra (24km), Caldas de Reis (26km), Padrón (23km) e, por fim, 28km até Santiago de Compostela.

Parador de Baiona

Dia 1: Baiona a Vigo

27km. Praias, sol, brisa. Carros, concreto, dor.

Nossa peregrinação começa à beira de uma baía calma pontilhada de barcos, flutuando na história. Do nosso hotel, um Parador espanhol, entramos no camino rumo ao leste, em direção a Santiago de Compostela.

Baiona fazia sentido como ponto de partida. Nossa caminhada tinha que caber em 6 dias, ter mais de 100km e incluir o oceano. Porto não cabia no cronograma; Tui não mostrava o Atlântico o suficiente; Oia exigia uma logística especial; sair de Vigo não nos daria um dia inteiro de água se estendendo até o horizonte. Baiona pareceu a escolha perfeita, a 127km de Santiago.

A história de Baiona era mais um motivo. A notícia da descoberta da América chegou primeiro aqui, mas a península já era estratégica muito antes disso: os romanos se estabeleceram aqui há cerca de 2.000 anos para controlar as rotas marítimas. Na Idade Média, nobres galegos expandiram suas fortificações e, no século XVI, o Império Espanhol reforçou ainda mais suas muralhas de pedra. O Parador de Baiona, onde dormimos antes da caminhada, é, ele próprio, uma antiga fortaleza sobre uma península que protege a baía.

Eu ouvi falar dos Paradores pela primeira vez quando Paul Graham os colocou lado a lado com marcas como Aman, Rimowa, Porsche e Lego. A partir de 1928, o governo espanhol converteu castelos, palácios, mosteiros e fortalezas em hotéis luxuosos, mantendo preços mais acessíveis. Fez sentido reservar, e não decepcionou.

Baiona

A caminhada pela costa foi perfeita, apesar da temperatura alta. O vento era suave e refrescante. Dava para ver navios no horizonte, e entre o oceano e a calçada havia faixas de areia que se estendiam o bastante para parecer um tapete. Pessoas caminhavam descalças enquanto seus cachorros corriam para cheirar qualquer canto salgado que encontrassem. Por uns 15km, seguimos por Playa Ladeira, Playa América, Playa Patos, playa, playa, playa. A brisa no rosto me deu um otimismo sem fundamento para essa jornada.

E se os próximos cinco dias fossem tão perfeitos quanto esse?

Quando viramos para o interior em direção a Vigo para os 10km restantes, meus ouvidos começaram a zumbir com buzinas incessantes e meu calcanhar começou a latejar de dor. De repente, estávamos sendo engolidos por uma selva de concreto. Foi quase engraçado terminar o dia com uma competição interna entre os pensamentos e o trânsito barulhento. Virou uma oportunidade de praticar aquelas habilidades de meditação enquanto fazia careta de dor.

Meu calcanhar esquerdo doía como se eu tivesse pisado num prego. Não era uma dor desconhecida, porque tinha me assombrado no Japão 10 meses antes. De certa forma, eu esperava por ela, mas não dei muita atenção porque tinha sumido. Porém, umas duas semanas antes dessa caminhada, começou a latejar de novo, com intensidade 1 de 10. Eu corri ao médico para investigar, mas os exames foram inconclusivos. Era tarde demais, e eu nunca cancelaria uma caminhada por causa de uma dor de intensidade um, certo?

O que eu não esperava era que ela voltasse com tanta intensidade. Quando cheguei ao hotel, estava insuportável, um 8 de 10.

Notas da noite

Para essa jornada, eu trouxe no bolso um caderninho para reunir meus pensamentos. Toda noite, eu me deitava na cama, e o dia não terminava até que eu refletisse sobre seis coisas.

22/mai/26 | Baiona → Vigo
Pelo que sou grato: Pela amizade durante essa viagem.
Uma lição: É possível consertar um dia ruim se você terminá-lo num restaurante com estrela Michelin.
O que fica para trás: A ideia de que uma dor que passou não volta.
Kaizen / o que melhorar 1% para amanhã: Eu preciso de bastões de caminhada.
Corpo: Dor! 8 / 10. Felizmente melhor no hotel.
Mente: Atordoada, aérea. 8-10km na rodovia ao lado de carros sem parar me deixaram sobrecarregado.
Uma imagem: A península de Baiona encolhendo atrás de nós.

Na manhã seguinte, eu comprei um par de bastões de caminhada.

Dia 2: Vigo a Redondela

16km. Samambaias, elevação, navios no horizonte.

No mapa, Vigo e Redondela parecem uma única mancha cinza de concreto. Elas se encostam e você não sabe onde uma termina e a outra começa. As cidades contornam uma montanha verde no meio, onde fica o Parque Florestal de Vixiador. É como se o terreno elevado tivesse empurrado a estrada para o lado.

Para escapar do concreto cinza de ontem, ignoramos os guias de viagem e desenhamos nossa própria rota: uma linha mais ou menos reta por cima daquela montanha. O plano dá certo, e somos recompensados com um dia ótimo. A caminhada alterna entre o verde e bairros minúsculos, sempre nos devolvendo às árvores.

Vista no trecho Vigo-Redondela

Eu escrevi naquela noite,

23/mai/26 | Vigo → Redondela
Grato: pela minha esposa, por me resgatar das formigas. Por massagear meus pés doloridos depois de um dia impossível, mesmo estando cansada também.
Lição: Hoje aprendi na prática como meros 10% de eficiência a mais, vindos dos bastões, podem ser um grande recurso para ajudar a reduzir a dor, ou pelo menos adiá-la. Valeu a compra dessa manhã.
Kaizen (melhorar 1%): Melhorar minha postura com os bastões.
Corpo: Meu corpo deu muito de si hoje. Demais. Dor nos pés em torno de 6 / 10. Pelo menos não o 8 / 10 de ontem. Mais calmo agora.
Mente: Em paz. Serenidade.
Uma imagem: Uma floresta de samambaias, quase verde-limão, algumas pontas enroladas como caracóis. Ao fundo, a baía de Redondela. Navios.

Dia 3: Redondela a Pontevedra

24km. O corpo cansado que disse “não” na noite anterior acordou de manhã dizendo “talvez”.

Quando você sai de Redondela, começa a subir e descer. O terreno plano dá lugar a pequenos morros e vales. O caminho muda o tempo todo, mas em versões da mesma coisa: mais uma subida, mais uma descida, mais um trecho de árvores. É bonito, mas fica difícil sentir o progresso. Meus passos marcam um ritmo persistente, como um metrônomo, mas a noção de distância fica confusa. Eu não sei se andei 1 ou 3km.

O mapa, porém, insiste que uns 5km se passaram desde a última vez que olhei, e Pontevedra está mais perto. Essa diferença entre o que eu sinto e o que o mapa mostra me lembra de parar de medir o progresso pela sensação e focar no próximo passo.

A vida é assim às vezes. Os altos e baixos nos roubam a perspectiva e nos fazem sentir travados. Nem sempre temos uma medida objetiva dizendo que estamos avançando. Caminhar ensina que a percepção pode enganar. Às vezes, a próxima ação importa mais do que a sensação de progresso.

Momentos ruins são só checkpoints.

A jornada nos ensina a abrir mão da necessidade de sentir progresso o tempo todo. O progresso nem sempre se anuncia com checkpoints ou placas. Às vezes você só o reconhece quando olha para trás.

O que importa é saber aonde você está indo e corrigir o rumo quando se desviou. As florestas verdes, o som da água correndo e a sombra fresca não trouxeram o destino para mais perto, mas mudaram a sensação de caminhar até ele.

Olhando para trás, enquanto o Kumano Kodo pareceu uma série de trilhas diferentes, o Camino parece uma única estrada longa que se repete uma vez por dia.

A trilha japonesa é deslumbrante e caótica, e você nunca sabe o que esperar na próxima curva. As subidas põem os joelhos à prova. O terreno exige concentração em cada passo, decisões sobre em qual pedra não pisar, ou qual vão entre as raízes é mais seguro para o tornozelo. Cada dia é diferente. Inúmeras vezes me peguei de queixo caído diante das paisagens mais bonitas.

O Camino, por outro lado, é o ambiente ideal para refletir, se repetindo todo dia. Não que o Kumano não sirva para isso, mas nos longos trechos retos do Camino, você pode se pegar no piloto automático, absorto num pensamento, e então perceber que vários minutos se passaram.

Naquela noite, eu me deitei na cama e escrevi no meu caderninho,

24/mai/26 | Redondela → Pontevedra
Grato: pelos cheiros, por ser levado adiante, pelo som da água no riacho e pela imersão sensorial na natureza. Por pisar em Pontesampaio. Pelo privilégio de continuar caminhando.
Lição: ser feroz no combate às frustrações com as circunstâncias. Exercitar meu foco nas coisas que posso controlar, e a gratidão pelas que não posso.
O que fica para trás: A frustração involuntária com as circunstâncias.
Kaizen (melhorar 1%): Alongar as panturrilhas com mais empenho. Fazer mais pausas para os pés. Os bastões ajudaram muito, mas não foram suficientes. Eu deveria parar a cada 1h, com ou sem dor.
Corpo: Os pés estão melhores que ontem. Eu compensei um pouco com as panturrilhas e elas pagaram o preço.
Mente: Limpa.
Uma imagem: Água correndo sob a pequena ponte vermelha. Cristalina, limpa. Pés descalços na pedra fria, a sensação de estrelas sob as solas. Pensamentos se esvaziando.

Dia 4: Pontevedra a Caldas de Reis

26km. O espaço esticando o tempo. Movimento, tempo sem interrupções.

No quarto dia, em algum lugar entre Pontevedra e Caldas de Reis, eu já tinha caminhado uns 9km. O caminho desaparecia na floresta, seguindo estradas antigas que conectavam vilarejos muito antes de qualquer um de nós nascer.

Enquanto caminhava, me peguei pensando sobre o que essa jornada realmente significava. Um dos pilares é a sensação de que cada dia oferece uma oportunidade de deixar algo para trás.

Enquanto caminho, repasso conversas, revisito problemas e penso nas coisas que têm me incomodado. A cada quilômetro, de alguma forma esses pensamentos parecem mais distantes, como se tivessem ficado em algum ponto da trilha.

Claro que isso não é totalmente verdade. A maioria desses problemas ainda vai estar me esperando quando eu voltar para casa. A caminhada não os resolve, e a distância certamente não os apaga.

O que muda, porém, é a forma como eu os vejo. Isso, mais do que qualquer outra coisa, é o que fica para trás na estrada. Velhas suposições, velhos julgamentos, velhas maneiras de interpretar a mesma situação.

Parte dessa mudança vem da distância, e parte vem do tempo. Costumamos dizer que o tempo é o melhor remédio, e provavelmente não existe forma melhor de esticar o tempo do que caminhar.

Os dias ficam mais longos. Pensamentos que normalmente seriam interrompidos por reuniões, notificações ou afazeres podem se desenrolar até chegarem naturalmente a uma conclusão. É como se a caminhada desse ao tempo mais espaço para fazer o seu trabalho.

Talvez seja isso que eu esteja realmente procurando aqui, não deixar meus problemas para trás, mas deixar para trás a pessoa que olhava para eles ontem.

Destravando

Antes de chegar ao Camino, parecia que minha mente arrastava uma bola de ferro.

É isso que o estresse faz comigo. Eu evito ambiguidade, resisto a trocar de contexto e tenho dificuldade de explorar até as coisas que eu amo. Olhando para trás, é como se minha mente tivesse perdido a amplitude de movimento depois de ficar tensa por tempo demais.

Para mim, três ou quatro dias geralmente bastam para um reset curto, para colocar os sistemas de volta no ar. A reinicialização acelera quando combino caminhar com meditar.

Caminhar dá à minha mente um trilho para seguir. Minhas pernas encontram um ritmo constante para se acomodar e, antes que eu perceba, meus pensamentos começam a se mover na mesma velocidade.

A diferença entre dias bons e ruins é para onde vai a nossa atenção. A vida moderna é boa em decidir isso por nós. Notificações, notícias, afazeres, conversas, tarefas inacabadas. De repente, minha mente vai parar em coisas que não posso controlar.

Caminhar interrompe esse padrão de um jeito que as férias raramente conseguem. Meu corpo já sabe o que fazer, meus pés continuam se movendo e meus olhos acompanham a trilha. Pensamentos que normalmente seriam interrompidos dezenas de vezes finalmente podem chegar à própria conclusão.

Durante horas, não há nada competindo pela minha atenção além da trilha. Depois de alguns dias, me pego pensando de forma mais deliberada de novo, não porque o Camino me muda, mas porque me dá silêncio suficiente para perceber onde minha atenção esteve esse tempo todo.

25/mai/26 | Pontevedra → Caldas de Reis
Grato: pela dor no pé melhorando. No geral, 3 / 10, exceto nas subidas de asfalto, chegando a 7 / 10. Grato por conseguir aproveitar muito mais a vista, os cheiros e os sons sem aquele incômodo constante.
Lição: Prestar mais atenção ao estado meditativo quando ele chega através do silêncio. Dar o foco e a atenção devidos àquele momento, à sensação, e vivê-la por completo.
O que fica para trás: Eu estava refletindo sobre quais problemas deixar para trás. A estrada me convida a largar problemas pelo caminho. A cada passo, a cada nova cena, um pensamento pode cair no chão e ficar ali. No meu caso, quando eu voltar para casa, esses problemas ainda vão estar lá. Eu não posso simplesmente deixá-los entre um passo e outro. O que eu sei é que vou vê-los de forma diferente quando voltar, portanto o que fica para trás são as perspectivas antigas, as que não me servem mais. A nova percepção é tranquila, construtiva e com a convicção de que não devo gastar energia com coisas que não controlo.
Kaizen (melhorar 1%): Mais atenção às subidas de asfalto e às pausas para os pés.
Corpo: Pés doloridos. À noite, continuam latejando.
Mente: Clara. Cansada, mas lúcida.
Uma imagem: Um corredor de bambus verdes, batendo uns nos outros e ecoando um som seco, como crianças brincando de amarelinha. Um fio de água corta a cena, carregando um som de paz de um ouvido ao outro. Meus olhos se fecham, os pensamentos desaparecem e, sob meus pés, uma ponte de pedra me sustenta.

Dia 5: Caldas de Reis a Padrón

23km. Florestas, vinhedos, pedras antigas. Pazo Arretén. Saudade.

Por meses antes da viagem, eu estava ansioso por um lugar em particular: o Pazo Arretén. Ele já estava na minha cabeça muito antes de chegarmos a Padrón. Eu tinha lido sobre ele, visto algumas fotos e decidido que seria o tipo de lugar onde eu gostaria que o Camino desacelerasse. Acabou sendo exatamente isso, e mais.

Isso vai soar pior do que é, mas, da caminhada em si, eu quase não tenho memória desse dia. Eu tenho flashes de uma igreja, de muito verde e do destino. Nada deu errado. Não havia problema para resolver, nenhuma dor forte o bastante para ocupar cada pensamento, nenhuma mudança dramática de cenário para dividir a caminhada em capítulos. A estrada de Caldas de Reis a Padrón era bonita de um jeito constante, homogêneo: floresta, pedra, vinhedo, vilarejo, e então outra versão da mesma coisa.

Talvez a memória precise de contraste. O quinto dia não teve arestas. Ele sobreviveu principalmente nas fotografias, então hoje vou deixar que elas falem por si.

Em algum momento antes do meio-dia, paramos na igreja de Santa Mariña de Carracedo. Largamos as mochilas e descansamos na grama. Não era a grama mais verde que eu já tinha visto, mas naquele momento parecia: um tapete macio abraçando a igreja, enrolado nas pedras antigas como um cachecol de cor viva em volta de um velho. Por alguns minutos, não havia outro lugar para estar.

A igreja nasceu de um mosteiro medieval, e suas pedras pareciam quase tão antigas quanto o Camino. Foi construída em algum momento do século XII. Ao lado dela havia uma construção comprida sem teto, se rendendo lentamente ao tempo.

Eu tinha reservado o Pazo Arretén para a noite porque, bem, era o melhor lugar para dormir nessa cidadezinha. Eu também tinha previsto corretamente que, no quinto dia, ia querer um jantar longo e vinho.

O que eu não esperava era Rosalía de Castro. O pazo pertenceu por gerações aos antepassados maternos dela, e a mãe dela nasceu ali. Rosalía chegou a escrever sobre a casa em um de seus poemas.

Seu Cantares Gallegos, publicado em 1863, é considerado o primeiro livro publicado inteiramente em galego. Ele ajudou a iniciar o renascimento que devolveu à língua o seu lugar de destaque na literatura, o Rexurdimento.

Enquanto lia sobre a obra dela, uma palavra me fez parar: saudade. Eu cresci no Brasil aprendendo que saudade existia só em português. O inglês não tem uma tradução exata. Nostalgia chega perto, mas parece arrumada demais. Saudade é a falta profunda deixada por alguém, algum lugar ou algo ausente: uma dor feita de afeto e distância.

E, no entanto, ali estava ela, em galego, carregando quase o mesmo significado.


Jantamos numa sala de vidro anexa às velhas paredes de pedra, vendo a noite cair sobre a propriedade. A comida era boa, mas foi o cenário que ficou na memória: vinho da própria vinícola deles, luz quente sobre vidro e pedra, a sensação de que o tempo tinha suavizado tudo ao nosso redor. Em algum momento, até conseguimos convencer o chefe do garçom a nos deixar levar uma garrafa, algo que eles normalmente não vendem. Pareceu uma pequena vitória improvável no fim de um dia longo.

O vinhedo do próprio Pazo Arretén

Naquela noite, eu escrevi no meu caderninho:

26/mai/26 | Caldas de Reis → Padrón
Grato: por ter condições de comer bem, dormir em lugares bons e não carregar grandes preocupações.
Lição: é incrível como o corpo se adapta tão rápido. Eu quase não tive dor no pé hoje. Foi 3 / 10, e no fim 4 / 10.
Kaizen (melhorar 1%): Sair mais cedo de manhã.
Corpo: Bem.
Mente: Ótima.
Uma imagem: Pazo Arretén.

Dia 6: Padrón a Santiago de Compostela

28km. Nosso último dia.

Depois de alguns quilômetros de estrada, enquanto a luz da manhã invade os vãos entre folhas e galhos, batendo no chão num amarelo incandescente, ouvimos um som familiar ao longe, uma espécie de flauta, fraca e contínua. A Escócia me vem à cabeça.

O som fica mais alto e mais definido a cada passo. Ao fazer uma curva no bosque, vemos dois velhinhos tocando uma gaita de fole e um tambor, como se liderassem um exército para a batalha. Sorrimos diante de uma combinação de elementos que provavelmente nunca mais vamos viver na vida, a trilha sonora de um filme de seis dias.

Ainda estamos a uns 24km do nosso destino.

Hora dourada

A uns 8km do fim, do alto de um morro entre as árvores, vemos prédios e uma roda-gigante no horizonte. Dali, descemos ao vale em direção a Agrela, e a chegada é uma nova subida, constante. Passamos por vielas minúsculas, passagens sobre pontes, sentindo que o fim está cada vez mais perto.

Aos poucos, somos recebidos por carros, calçadas e tudo que faz uma cidade movimentada. Devemos estar em Santiago. Vemos pessoas de botas de caminhada do outro lado da rua, casais arrastando os pés, famílias apressadas nas esquinas. Avançamos por bairros por cerca de uma hora até começarmos a ver o que deve ser o centro da cidade. A peregrinação se transforma de árvores e rios em asfalto e lojas.

De repente, uma viela surge à nossa frente, e centenas de pessoas passam por ela. Deve ser nosso destino final.


Chegando à catedral por uma rua lateral estreita

Quando entrei na Praza do Obradoiro, o destino final, senti algo que não esperava. Ou melhor, não senti.

As pessoas entravam na praça por todas as ruas estreitas. A todo momento chegava outro grupo, sorrindo, chorando e se abraçando. A catedral se erguia acima de todos, a fachada coberta de figuras esculpidas que gerações de artesãos levaram séculos para moldar. Era impossível não notar a escala de tudo aquilo.

Eu tinha imaginado esse momento muitas vezes. Depois de caminhar mais de 140 quilômetros, esperava empolgação, talvez alívio, uma sensação de triunfo, talvez até vontade de comemorar.

Mas, pelo amor de Deus, eu não senti nada! Uma espécie de vazio tranquilo, como encarar uma parede depois de um treino pesado na academia!

Eu me deitei no chão de pedra, usando a mochila como travesseiro, e fiquei olhando a catedral, esperando os sentimentos chegarem a qualquer momento. Meus olhos vagaram pelas incontáveis esculturas, imaginando as pessoas que construíram cada canto daquele lugar, uma geração após a outra. Meus pensamentos voltaram aos dias anteriores. Meu GPS dizia 144 quilômetros, mas minha memória via uma única imagem, como se a jornada inteira tivesse sido comprimida num borrão. Eu estava cansado.

A exaustão aos poucos deu lugar a uma sensação de realização. Eu estava orgulhoso da caminhada, grato. Mas o final em si me deixou estranhamente insatisfeito. Eu só entenderia na manhã seguinte por que me sentia assim.


Caminhantes continuam surgindo de todos os cantos. Atrás deles, as ruas estreitas que levam à praça ecoam sons de uma multidão invisível. Gritos de comemoração ao longe anunciam mais um grupo de peregrinos, e os que estão na praça aplaudem a chegada, uma atrás da outra. Um minuto depois, chega outro grupo. Depois outro. Eles vêm de todo lado: França, norte da Espanha, Andaluzia, Portugal. O ciclo se repete sem parar, multiplicado pelas muitas rotas, o Francés, o Norte, o Primitivo, o Inglés, o Portugués, a Vía de la Plata, o Mozárabe, dos Pireneus ao Estreito de Gibraltar.

Alguns caem no choro, outros riem. Amigos se abraçam, famílias comemoram. A cada instante você testemunha alguém chegando ao fim de uma jornada profundamente pessoal, e não há duas chegadas iguais.

A praça nunca para de se transformar em outra coisa.


Eu sinto um toque leve no braço esquerdo. Quando me viro, uma mulher sorridente de uns sessenta anos está em pé ali. Ela pergunta se podemos tirar uma foto em frente à catedral.

Depois da foto, começamos a conversar. Ela é de uma cidadezinha no México e, por mais de dez anos, vinha vivendo como se a vida já tivesse ficado para trás, sem viver mais, esperando a morte chegar.

Um dia ela percebeu que a vida estava escorrendo entre os dedos. Um momento de rebeldia a levou a encontrar o Camino. Ela veio sozinha e caminhou mais de 160 quilômetros.

Enquanto conta sua história, as lágrimas começam a escorrer. Ela tinha acabado de pegar o certificado de peregrina, que segurava firme numa mão enquanto gesticulava com a outra o que tinha acontecido nos dias anteriores. O Camino ensinou a ela uma lição: que a vida é para ser vivida, não assistida enquanto se espera por algo que talvez nunca chegue.

Então ela sorriu entre as lágrimas e nos disse que a mulher que tinha chegado à Espanha algumas semanas antes não existia mais. Ela estava voltando para casa como outra pessoa.


Eu não sei se o Camino, ou as caminhadas de modo geral, muda todo mundo do mesmo jeito. Eu duvido. O que eu acredito é que, de algum jeito, ele dá às pessoas exatamente o que elas precisam.

Alguns encontram coragem, outros encontram paz. Alguns saem com um propósito renovado. Outros simplesmente saem mais leves do que chegaram. Os distraídos encontram foco, os confusos encontram clareza.

Para mim, trouxe perspectiva. Os problemas que me esperavam em casa não tinham desaparecido, ainda estariam lá depois do voo de volta, mas não ocupariam mais o mesmo espaço na minha mente.

Caminhar dia após dia não resolve seus problemas, mas você volta com distância suficiente para olhar para eles de outro jeito. De certa forma, me lembrou de como me senti depois de fazer o Kumano Kodo no Japão. Toda caminhada longa parece nos mandar para casa como uma versão ligeiramente diferente de nós mesmos.

A catedral, vista da Praza do Obradoiro

Na manhã seguinte, eu voltei à catedral, mas dessa vez entrei. No momento em que olhei para cima, meu queixo caiu.

As colunas enormes, o altar dourado, os tubos do órgão desaparecendo no teto. A altura absurda do lugar. Tudo parecia grande demais para ser real. Eu fiquei ali parado como uma criança vendo um avião pela primeira vez.

Pela primeira vez desde que cheguei a Santiago, senti a emoção que eu esperava ter sentido no dia anterior. Eu finalmente entendi por que os peregrinos atravessavam a Europa a pé para chegar a esse lugar, às vezes por meses.

Olhando para cima, me impressionou pensar em como essa construção deve ter sido inimaginável para alguém que chegava aqui na Idade Média. Qual seria o equivalente moderno? Talvez ver a Estação Espacial Internacional de perto. É difícil pensar em muitas criações humanas que inspirem essa mesma mistura de descrença e admiração.

Eu encontrei um lugar tranquilo para sentar e fiquei ali por um bom tempo, absorvendo a paz e tentando imaginar como deve ter sido chegar aqui como um peregrino medieval depois de atravessar florestas, montanhas, rios e reinos inteiramente a pé.

Só então Santiago realmente pareceu o fim da jornada.


27/mai/26 | Padrón → Santiago de Compostela

Grato: por poder carregar essa conquista comigo. 144 km.
Lição: apesar da sensação de pouco progresso, entre subidas, descidas e cenários repetidos, o mapa mostra que 5 km se passaram. Eu não tive isso no Kumano Kodo (lá, progresso parecia progresso).
O que fica para trás: A necessidade de sentir progresso o tempo todo. O progresso nem sempre vem com checkpoints ou placas. Às vezes só fica visível quando olho para trás. É necessário, porém, ter um destino claramente definido, estar disposto a mudar de direção quando estiver no caminho errado, e aproveitar a jornada. A beleza do verde, o som da água cristalina e a sombra refrescante tornam a passagem do espaço e do tempo muito mais suportável.
Kaizen (melhorar 1%): Alongamentos diários e automassagem eliminam a dor. Durante a caminhada, repeti esse processo toda noite e acordei sem dor. Eu pulei um dos dias e sofri o dia seguinte inteiro com desconforto. Depois dessa peregrinação, eu deveria incorporar esse processo na minha rotina.
Corpo: Exausto. O último dia foi duro. A dor no pé estava aliviando, mas no último dia eu fiquei totalmente limitado.
Mente: Clara. Eu não senti a euforia que esperava quando cheguei à igreja. Só alívio. A recompensa veio no dia seguinte, quando finalmente entrei na catedral.
Uma imagem: Os detalhes arquitetônicos da igreja de Santiago. Os pequenos e infinitos relevos nas paredes, carregando histórias de séculos atrás. Ouro por toda parte elevando figuras históricas.

Read in English